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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ainda, e novamente, a frase "Vós sois deuses"

A propósito da frase «Vós sois deuses» da qual a Ana e o Filipe fizeram leituras diferentes numa reunião de 3ª feira, aqui se deixam expressas as duas opiniões de modo a que possa, cada um, também debruçar-se sobre o assunto. Como sempre, o tema é aberto a todos e quaisquer comentários que hajam por bem querer fazer até porque o tema é interessante e vale certamente a pena continuar a ser analisado.


- Meu querido amigo, que eu me recorde não tivemos nenhuma diferença de opinião acerca da frase "Sois Deuses". Entendo-a como a apreendi, com racionalidade e lógica pois sendo eu uma parte de Deus, EU SOU. Obviamente que tal não implica que eu tenho o poder de Deus, ou que possa tê-lo algum dia. Acho que tudo isso ficou explícito e bem esclarecido na conversa e nas observações posteriores dadas pelo Sr. Bandeira. Além disso podes comprovar o mesmo no Evangelho Segundo o Espiritismo no Capitulo XVII "Sede Perfeitos" que explica o que eu não consegui transmitir, porque o meu principal objectivo era a análise do texto que li. Mas, voltando à nossa frase, a tradução Sois Deuses está correcta, senão Jesus não diria: "Sede Perfeitos como vosso Pai Celestial é Perfeito".
No que nós discordámos foi que tu disseste que tal frase não estava escrita em lado nenhum senão nos Salmos. Eu apenas afirmei que não era bem assim e afinal, para grande alegria minha vejo que me envias textos do Novo Testamento, exactamente aquele que eu referi, João, 10 (32-34). Claro que este tipo de frase, tirada do seu contexto é exagerada e pode levar a mal entendidos e aí sim, claro que estou de acordo contigo. Mas penso que não era o caso até porque em todos estes anos que frequento a AELA sempre ouvi esta frase maravilhosa proferida pelo "nosso" querido amigo Bandeira, com a devida ressalva e explicação que tal se aplica porque somos emanação divina, e o resto tu já sabes.
Penso que estamos esclarecidos. Certo?
Se entretanto quiseres pegar neste texto e inseri-lo como resposta no Blogue podes fazê-lo, como comentário, ou como melhor entenderes.


- O que eu queria dizer, na altura, era que Jesus nunca disse a frase “Vós sois deuses” assumindo-a como sua nem como seu ensinamento. O episódio em que surge esta frase vem descrito no Evangelho de João, capítulo 10, versículos 22 a 39 e, nele, Jesus cita a antiga lei referindo-se-lhe como a vossa lei - «Não está escrito na vossa Lei: ‘Eu disse: vós sois deuses’?» - e silencia os judeus que se apegavam à letra da lei quando diz «Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus - e a Escritura não se pode pôr em dúvida -». Partilho da leitura que defende que Jesus condicionou ao Antigo Testamento o conceito deuses (elohim) que tinha, na antiga lei, um significado diferente - «Se ela chamou deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus» - reenquadrando-o na perspectiva da centelha divina, que todos somos, como filhos de Deus e, nessa perspectiva, "o Pai está em mim e Eu no Pai". Aliás, ainda no mesmo diálogo, Jesus não se define como Deus, demarcando-se dessa afirmação ao definir-se como Filho de Deus - «como é que dizeis: ‘Tu blasfemas’, por Eu ter dito: ‘Sou Filho de Deus’?». Se Jesus quisesse dizer que, efectivamente, nós somos deuses, seria de esperar que Ele o tivesse referido noutras ocasiões ao longo do seu apostolado. Ora nem os Evangelhos, pelo menos os canónicos, nem as Epístolas nem os Actos dos Apóstolos, referem Jesus a usar esta expressão. Que me lembre, assim dita, só aparece uma única vez, na cena descrita com os judeus e, na leitura que faço, Jesus não diz que somos deuses. Ao perguntar aos judeus “não sois vós que dizeis que” não assume que seja Ele a dizê-lo ou que alguma vez o tenha dito.
Finalmente, e como bem dizes, «este tipo de frase, tirada do seu contexto é exagerada e pode levar a mal entendidos». É também o que penso, querida amiga. Na sociedade actual perdeu-se o sentido da história e, por consequência, da relatividade dos conceitos. E ao dizer-se "nós somos deuses" utilizando um conceito de deuses que era específico do Antigo Testamento, arriscamo-nos a endeusar-nos dum modo errado com a mensagem errada.


NOTAS:
- Este tema já foi objecto, no blog, dum post anterior nesta ligação http://aeluzamor.blogspot.com/2010/02/nos-somos-deuses.html
- Quem queira consultar “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, e não o possua, pode fazê-lo nesta ligação
http://www.allan-kardec.com/Allan_Kardec/L_evangile_selon_le_spiritisme/evan_br.pdf

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal


«Natal quer dizer nascimento. Nascer. É tradição chamar-se Natal ao dia 25 de Dezembro porque nesse dia nasceu Jesus Cristo. Para uns é o filho de Deus, para outros é apenas um homem mas, de qualquer maneira, um homem bom. Por isso, quando nasce um menino é sempre Natal. Quanto tu nasceste também foi Natal e foram os teus pais que o fizeram.»
In “Operários do Natal”, textos de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa.
Estamos, então, a celebrar um nascimento. Não me recordo quem é o autor da frase que diz que «Cada criança que nasce, traz consigo a mensagem de que Deus ainda não perdeu a esperança no homem» porque cada nova vida é uma aventura que embora escrita nas esferas superiores não está ainda escrita por nós. Cada decisão que tomamos, a cada momento, altera o futuro. O futuro é e será a consequência do que estamos a fazer neste momento. Se optarmos por uma via, ela conduzir-nos-á a um caminho; se optarmos por outra via, o resultado pode ser idêntico, mas nunca será igual.
Diz-se em “O livro dos Espíritos”: «As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-lo à prática de actos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.»
Quando no Novo Testamento se diz: «Não te admires de Eu te ter dito: Tendes de nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito» (Jo 3, 7-8) estamos a ser informados que as nossas acções conduzirão, a cada momento, a diferentes caminhos de acordo com as nossa opções, a caminhos que não sabemos de onde vêm nem para onde vão.
Significa isso que devemos cruzar os braços, sentarmo-nos a um canto e esperar que a crise passe?
Em quase todas as doutrinas se chama a atenção para os perigos a que nos sujeitamos todos os que nos limitamos a falar, sem agir. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, encontramos o seguinte: «Sendo livre o homem de agir num sentido ou noutro, os seus actos acarretam-lhe, e aos demais, consequências subordinadas ao que ele faz ou não. Há, pois, devidos à sua iniciativa, sucessos que forçosamente escapam à fatalidade e que não quebram a harmonia das leis universais, do mesmo modo que o avanço ou o atraso do ponteiro de um relógio não anula a lei do movimento sobre a qual se funda o mecanismo.»
As provas por que passamos não têm por fim «dar a Deus esclarecimentos sobre o homem, pois que Deus sabe perfeitamente o que ele vale, mas dar ao homem toda a responsabilidade de sua acção, uma vez que tem a liberdade de fazer ou não fazer.» (O Livro dos Espíritos)
Nós estamos a experienciar uma nova vida. O que está em causa é o que nós formos capazes de fazer com ela. De cada vez que definimos novas metas para a nossa vida, novos objectivos, estamos a dar um novo impulso ao nosso querer mas raramente assumimos com toda a nossa energia esse querer. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” somos esclarecidos que, além do Anjo guardião, temos Espíritos protectores que, embora menos elevados, não são menos bons e magnânimos. Mas que temos também Espíritos sedutores que se esforçam por nos afastar das veredas do bem, sugerindo-nos maus pensamentos. Aproveitam-se de todas as nossas fraquezas, como de outras tantas portas abertas, que lhes facultam acesso à nossa alma. Alguns há que se nos aferram, como a uma presa, mas que se afastam, ao reconhecerem-se impotentes para lutar contra a nossa vontade.
Porque não aproveitamos este Natal para nos elevarmos acima de nós próprios, aperfeiçoando a nossa moral? Porque não nos renascemos no objectivo de que cada uma das nossas obras, por mais insignificante que a consideremos, concorre efectivamente para a plenitude do centro divino do Universo?

Natal quer dizer isto mesmo: Nascimento !


Texto de reflexão lido na 3ª feira, dia 22 de Dezembro de 2009, na reunião da AELA

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